terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Muda


Ela tinha a singeleza de uma gazela abaixada atrás da moita, quase imperceptível e comendo mato. Comia muito, quase tudo que era verde, e só verde, talvez algum azul ou amarelo lhe apetecesse, mas era do verde que ela se alimentava, singela, como gazela atrás da moita.
Mal a viam, não se ouvia um pio, sem o único pio de um pinto que morre logo em seguida. Não mata pintos, come apenas verde, muito verde, como gazela atrás da moita.
Muda, ali perto da usina, ali era a moita. Muda, jamais se mudou dali, do bairro perto da usina. Muda, ali nasceu e assim viveu, sem dar um pio, menos que um pinto que morre em seguida, talvez um pinto natimorto, mas tinha vida, ninguém via, mas tinha vida. Na verdade só eu via sua vida de gazela atrás da moita.
E seu olhar tinha um anelo e me olhava com a cumplicidade que só um cão poderia mirar. Sorria muda, na tijuca, o bairro perto da usina, sem um pio, como um pinto natimorto, só que com vida, que ela não tirará, pois só come verde, talvez algum azul ou amarelo lhe apeteça. Atrás da moita, me olhando com a palidez de um cadáver e com o sorriso velado da compreensão escancarada diante de minha inércia covarde e humana.